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CBLOL 2026: “Nenhuma pressão externa pode ser maior que a pressão interna”, diz FURIA Maestro

CBLOL 2026: “Nenhuma pressão externa pode ser maior que a pressão interna”, diz FURIA Maestro

Atual campeão do CBLOL 2026 1º split e começando uma carreira de criador de conteúdo, Maestro topou conversar com o Mais Esports para contar sobre os bastidores da sua carreira. Confira a entrevista:

Quando eu fui te parabenizar pelo título, você falou que esse split foi um split bem difícil. Pela sua ótica, quando começa esse segundo split que foi tão difícil para a FURIA?

Olha, eu acho que grande parte do que a gente construiu para chegar nesse título do Split 1, que seria o segundo split aí do CBLOL, começou lá em janeiro, até antes, na verdade, porque os meninos fizeram bootcamp na Coreia antes. E eu já comecei ali com uma função nova, trabalhando de uma forma diferente.

Para quem não sabe, eu fiquei 10 anos como head coach, tanto da INTZ quanto da FURIA. Depois, fizemos uma transição e passei um ano e pouquinho como general manager. Então, eu era o cara ali que construiu o projeto junto com a diretoria para trazer esses meninos que estão aí, o Furyz e tudo mais.

Foto: Reprodução/LTA Sul Flickr.

No final do ano passado, a gente percebeu que, como a FURIA queria se reestruturar por dentro também, não queria ficar com muitos general managers lá dentro e queria concentrar isso tudo em uma pessoa, no Guerri. E aí a gente resolveu, em conjunto, tentar uma outra função para mim, que não seria necessariamente treinador, mas seria para usar o máximo possível da minha experiência.

Então eu quis usar o máximo possível do que eu tinha de experiência de performance. Voltei a trabalhar lá dentro e aí começou esse trabalho já nas prévias, nos bootcamps, e depois foi para janeiro.

Em relação à conquista, acho que, depois que a gente perdeu para a RED na Copa CBLOL, foi ali o principal ponto em que tivemos uma discussão, uma conversa, todo mundo junto. A gente entendeu o que estava acontecendo. Parte era por limitação nossa mesmo, estratégica e técnica, que a gente ainda não tinha percebido como vencer deles. A gente tinha muita dificuldade com dois times desde o início do ano: LOS e RED. E aí fomos desenvolvendo, desatando os nós, entendendo mais ou menos o que tínhamos que fazer.

E parte também, eu acho, foi um pouco da pressão que os jogadores colocaram neles mesmos.


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Foto: Reprodução/Riot.

Na minha opinião, desde o ano passado, quando a gente não performou na volta no terceiro split, os meninos já estavam com essa ideia de que, tipo assim, a gente está há muito tempo junto e precisa performar. E eu acho que eles começaram a colocar uma pressão muito grande em alguns pontos, mas alguns dos jogadores estavam cedendo mais a essa pressão. A gente trabalhou bastante isso no Americas.

Acho que o Americas foi muito importante para a nossa conquista desse split, desse Split 1. Porque no Americas, por incrível que pareça, apesar de ser um campeonato internacional e tudo, a gente jogou extremamente leve, sabe? Os meninos estavam sem pressão nenhuma, estavam a fim de jogar, só queriam bater nos caras, chamar os caras de horrível e coisas de jogador. Então, para mim, o Americas foi essencial.

Foto: Reprodução/Riot.

E não é à toa. Acho que das últimas vezes que eu fui campeão, inclusive desde lá da INTZ, o que preparou meu time para ser campeão na INTZ pela primeira vez foi uma Superliga. Então eu sou extremamente obcecado por campeonatos de pré-temporada, preparatórios e tal. Eu acho que são extremamente valiosos para testar coisa, organizar o que falta e tudo.

Então eu sou muito fã de pré-temporadas, e, para nós, a pré-temporada foram os treinos do First Stand e o Americas. Para mim, foi ali que realmente começou, apesar de a gente já estar meio estourado da Copa CBLOL. Acho que foi o início dos grandes trabalhos ali.

Ao longo de todo o split, eu sentia que o maior problema da FURIA estava na própria FURIA, ou seja, a solução não estaria fora, era interna. Você também tinha essa mentalidade?

Tinha, inclusive. Eu acho que a gente teve poucas discussões. Sempre que acaba o split, você tem discussões do tipo: “vai ter que mudar? Tem alguma coisa para mexer? Ou a gente só precisa se organizar melhor?”

E quando essas discussões aconteceram, eu queria deixar um salve para o Furyz, que é um dos caras que eu mais gosto no cenário desde que eu trouxe ele lá na FURIA, inclusive, no final de 2022. Ele também foi um dos caras que, assim como eu, achava que não precisava mexer em nada. Tipo, ele falou: “cara, a gente tem o material, a gente tem todo mundo aqui”. Desde o ano passado, inclusive, ele já pensava isso. E ele estava bem confiante de que, com esse mesmo grupo, a gente poderia fazer isso. E eu também.

Eu acho que esse grupo já tinha provado que podia ser campeão no ano passado e tinha provado também que poderia ficar em 6º lugar, se a gente não trabalhasse direito. Então é um grupo que tem uma range muito grande de possíveis resultados. A gente sabia que precisava atacar os pontos corretos, e foi isso que fizemos.

Mas, cara, a fé que tanto a organização quanto os treinadores quanto eu colocamos nos jogadores era 100%, mano. A gente tinha certeza de que, com esse grupo, dava para ser campeão.

Como foi lidar com essa “range” de performance que você citou da FURIA dentro da sua função?

Olha, eu acho que isso é a vida de todo mundo. É porque a FURIA agora está mais em evidência, então todo mundo fala dos altos e baixos da FURIA, mas a verdade é que todo time vive isso. E é um pouco da beleza do esporte e da parte humana do esporte. Acho que boa parte do porquê a gente gosta do esporte, se identifica com o esporte, é por essa parte humana: o cara pode estar bem, pode estar mal, pode desempenhar, pode não desempenhar, pode surpreender.

Então esse é o maior expertise que eu tenho, na verdade, em relação a todos os anos de experiência e também à minha característica desde molequinho, desde pequenininho, que é saber lidar com seres humanos, vamos dizer assim. Então essa foi a parte que eu mais foquei neles: na mentalidade, na cabeça deles, em como eles têm que identificar cada dia de treino, cada aprendizado.

Foto: Reprodução/Riot Games

Colocamos várias coisinhas pequenas dentro do dia deles para eles fazerem e não esquecerem o que leva eles a performar bem e o que leva eles a performar mal.

A gente não começou bem o split, tivemos um início que não foi muito bom. Aos poucos, fomos resgatando essas coisas, que são coisas importantes, são coisas simples, tá? Não são coisas tão complexas.

Você consegue exemplificar para a gente?

Consigo dar alguns exemplos. Uma das coisas que eu faço hoje, muita gente está falando que eu sou performance coach, que é uma coisa que está ficando cada vez mais popular lá fora e agora está começando a vir para cá. Mas, na verdade, eu não sou só a parte de performance coach. Eu também faço uma parte meio que de coordenadoria, que é uma parte em que eu atuo com todo mundo junto.

Então, o que aconteceu nessa derrota para a RED, principalmente? O que eu estava sentindo é que os jogadores estavam com muita pressão de ganhar o campeonato necessariamente. Tipo assim, quando você pensa no jogo do final de semana demais, quando você pensa na vitória demais, em um “só pode ser isso, se não for isso eu estou fodido, estou desgraçado, nossa, o que vai acontecer se eu perder?” e tal, você começa a inundar sua mente de pensamentos negativos. E você começa a colocar uma pressão extrínseca em cima de você, que não é saudável.

Então eu busquei alguns conhecimentos de fora, algumas coisas que eu já sabia, mas eu li um livro nessa pré-temporada: o livro do Daigo Umehara, e ele fala sobre isso, chama The Will to Keep Winning, que é tipo a vontade de continuar vencendo. E ele fala sobre a diferença da mentalidade de você ganhar sempre, continuar vencendo, versus a mentalidade de você ganhar um campeonato, ser campeão.


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(Foto: Robert Paul)

Ele fala que pode ser tão tóxico você querer ser campeão de uma coisa só que você coloca mais pressão do que deveria. Então um adversário que poderia ser um 50/50 vira um adversário mais difícil do que deveria, justamente porque você está se pressionando demais, colocando pressão demais nisso, sendo que deveria ser só mais um adversário. Deveria ser só mais um obstáculo.

E ele fala que essas mentalidades, parece esquisito, mas são conflitantes em altíssimo nível. Então, se você tiver a mentalidade de que você precisa ganhar a qualquer custo só aquele campeonato, só aquele jogo e tudo, você vai se prejudicar e prejudicar sua rotina. Sua preparação não vai ser tão boa. Enquanto, se você tiver uma mentalidade do jogo infinito, vamos dizer assim, de você ganhar sempre, você sempre vai ter uma vantagem de não estar pressionado e sim de estar feliz em mostrar o seu jogo em altíssimo nível contra aquele time que vai te desafiar.

Foto: Reprodução/Riot.

Então, cara, são shifts muito pequenos de mentalidade que podem fazer toda a diferença. E eu acho que, para jogadores, vou citar o nome dele aqui porque, para mim, é um motivo de orgulho, como o Tutsz, por exemplo, o crescimento que ele teve do ano passado para esse ano foi absurdo, mano, absurdo. Não estou falando de números, nem sei se ele está no topo dos números ainda, mas estou falando de cabeça: entrar no jogo focado, saber o que tem que fazer, não desistir de jogo, voltar de jogo difícil e tal. Cara, que apresentação.

Inclusive, na final, aquele jogo de TF dele, ele começa todo destruído, todo cagado. Matchup difícil. A lane não era para ter sido tão ruim, mas ele não jogou tão bem a lane. E, cara, ele e o Guigo ali principalmente criaram espaços dentro do jogo que eu não imaginava que ele fosse ter o sangue-frio de criar.

O cara, com sei lá, 30 e poucos minutos de jogo, puxando uma side lane de TF sem visão, tipo assim, para criar espaço para fazer um 5v4, entendeu? Tipo, cara, esse tipo de maturidade é uma coisa que você só atinge se tiver a mentalidade correta por tempo suficiente. Então, lá no dia da final, isso vai fazer diferença para o cara voltar de um jogo que não tinha como voltar.

Foto: Reprodução/Riot.

Você citar o Daigo é engraçado, porque eu ia trazer de exemplo outra pessoa, que é o TheShy. O TheShy diz em um documentário que focou muito em ganhar aquele Worlds que ele vence e, depois que vence, sentiu que ia ser muito fácil. Queria te perguntar: você sentiu que isso aconteceu na FURIA?

Olha, eu não acho que foi uma questão de ego, vamos dizer assim. Não foi uma questão dos jogadores estarem confiantes demais, ou entrando de salto alto e tal. Isso acontece às vezes. Mas eu não acho que foi isso no ano passado, principalmente não foi isso. Eu acho que o que foi, foi um gerenciamento ruim de carga nosso.

Por exemplo, esse split agora, mano, ele é duro, tá? Só para vocês saberem: a FURIA agora vai viajar e vai ficar 30 dias fora do país. Então vai ter bootcamp, aí tem MSI, aí tem outro bootcamp encostado, grudado, não volta para o Brasil e tem a EWC. Então, depois que você já jogou um split longo do CBLOL, você vai ficar mais um mês fora disputando em altíssimo nível e ainda volta na semana do CBLOL. Não tem descanso.


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Foto: Reprodução/Riot.

Então, cara, se você não souber gerenciar isso de uma maneira correta, o seu último split do ano vai ser ruim. E a gente voltou no ano passado com o bloco noturno, já colocando todos os treinos ao máximo do nível, porque sobrava vontade, na verdade acho que foi até um excesso de vontade, mas faltou gerenciamento.

Acho que, na minha opinião, pelo menos foi isso. Conhecer os jogadores, conhecer a rotina deles e entender que a gente precisa dar uma marcha lenta ali. Já estamos discutindo isso desde agora, como que a gente vai fazer nesse começo de Split 2, que não vai ser simples. A gente vai precisar ter um hiato ali; estamos pensando em quais são as melhores formas para a gente render lá na frente.

Maestro, você que acompanha a opinião pública sabe que poucos colocavam a FURIA como campeã e, ao longo do split, tiveram ainda mais dúvidas. Como vocês lidaram com a expectativa externa internamente na FURIA?

Uma parte da resposta para essa pergunta é essa questão de a gente saber da nossa range, do que a gente pode de melhor e de pior. Tendo consciência disso, todo mundo tendo consciência disso, a gente sabe que precisa trabalhar nas coisas certas, precisa ser inteligente com o nosso tempo.

Então, primeiro, uma parte organizacional nossa interna passa desde as reuniões que a gente tem todo início de semana da staff lá, da coaching staff, com todo mundo junto, para entender onde a gente vai atacar para ter aquele resultado que a gente gostaria. Qual é a melhor forma do nosso time quando ele se apresenta no final de semana e como a gente chega lá? Aí entra um monte de coisa, tá? Entra discussão de patch, quem está jogando V1 o suficiente, a mecânica está em dia, tal pessoa não está comunicando tão bem, essa pessoa está dormindo pouco. Então tem várias questõezinhas, tá? A gente teria que entrar num detalhe muito gigante para a conversa de hoje.

A outra parte da conversa, e aí eu acho legal que você até comentou sobre vocês, do Mais e tal, que eu assisto muito vocês falando sobre os times e tal. E, cara, eu acho que eu não teria uma opinião diferente da de vocês, porque o que mostra lá? Tipo assim, a galera vê a FURIA que foi campeã no passado, que tem esse potencial todo. Todo mundo estava falando que a gente ia chegar na final no início do split, né?

A FURIA começando daquele jeito, Tatu não estava jogando tão bem. A gente chega numa série contra a paiN, que era, sei lá, o saco de pancadas do CBLOL. E aí a gente perde um jogo, dá jogo no outro e tal. Então eu entendo isso, sabe?  Mas internamente a gente sabia que estava seguindo certos processos.

Foto: Reprodução/Riot.

E aí entra uma parte que é bem interessante, que também foi uma apresentação que eu fiz para eles, que essa eu peguei de outro lugar. Essa eu peguei do ex-head coach de rugby dos All Blacks.

No rugby basicamente existiu uma era de ouro, como se fosse o Chicago Bulls no basquete, que foi com a seleção da Nova Zelândia, que popularizou o haka, lá naquela seleção. A  Nova Zelândia não era nada no rugby até aquela seleção. E aí ele deu uma entrevista muito longa e tal falando sobre como ele tratava isso e como venceu repetidas vezes o Mundial de Rugby tendo um time totalmente desacreditado.

E uma das coisas de que eu gosto muito, que ele fala lá e que eu trouxe para o meu time também, é o seguinte: quando você tem uma pressão interna grande o suficiente para que os jogadores se mexam, os treinadores se mexam, todo mundo esteja desconfortável o suficiente, mas não tóxico, nenhuma pressão externa pode ser maior do que a pressão interna.

Então, independe do que estão falando. Inde­pende do que o analista falou, do que a nota da cartinha veio ou do que o torcedor pediu para o cara. “Ah, você deveria jogar de tal. Ah, o cara tal falou que a gente joga melhor de tanque. Ah, se o Guigo não tiver tank, a gente não ganha” ou “não pode deixar o Guigo jogar de tanque”, enfim.

Todas essas questões que vêm de fora são visões válidas, obviamente, de quem está de fora, mas nada, absolutamente nada de fora pode ser maior do que a pressão de dentro.

Então, se você tiver sucesso, e não é fácil manter a pressão interna alta sem ser uma pressão que estoure todo mundo, esse é o balanço. Essa é uma linha muito tênue que a gente tem que manter. Essa pressão altíssima dentro do nosso ambiente de treino, a ponto de os moleques às vezes saírem na porrada lá, figurativamente. Mas a gente saber que isso é saudável e, ao mesmo tempo, não fazer o moleque perder o sono por causa disso, porque ele precisa se recuperar.

Se você somar as duas coisas — preparação correta, colocar a inteligência onde você quer, qual jogador precisa de ajuda mais essa semana, qual é o tipo de draft que a gente precisa treinar, engolir o orgulho para fazer as coisas que devem ser feitas —, ao mesmo tempo você mantém uma pressão alta dentro de casa. Não interessa o que vier de fora, não interessa mesmo.

(Imagem: Divulgação/Riot)

Você concorda com essa mentalidade de ambiente super tóxico, exigente, para moldar uma mentalidade vencedora, à la cvMax e tal?

Resposta rápida: não concordo. Eu acho que isso, assim como não ter autoridade dentro do time, é um caminho fácil, na minha opinião. E manter o ambiente tóxico também é um caminho fácil, na minha opinião, porque são dois extremos. São dois extremos que, na minha visão, exigem um esforço muito pequeno.

No curto prazo, até funciona. Mas, no longo prazo, isso sempre dá problema.

E eu não acho que isso só exista na Coreia, por exemplo. Acho que tem aqui, inclusive, no Brasil. Já teve ambientes assim, tem ambientes assim até hoje. E eu acho que é o trabalho fácil, tá? Porque, para mim, quando você escolhe passar do limite do tóxico, você não tem esse equilíbrio.

Você faz o que quiser, na verdade. Se você é o treinador, vamos dizer, você manda no ambiente, faz o que quiser. Você pode ser egoísta, pode beneficiar você mesmo se quiser, e justifica isso falando que é para o bem do time, para o bem maior. “Ah, eu quero só o seu bem, então eu vou te foguetar online lá, vou falar mal de você no Twitter lá.” É muito fácil fazer isso, tá ligado?

Agora, difícil é você entender o que funciona de verdade. Difícil é você realmente pensar na cabeça do jogador, saber o que ele precisa sem que às vezes ele saiba também. Então você precisa ter essa voz da experiência. Eu não gosto disso. Acho que, para o curto prazo, funciona, tá? Muito possivelmente funciona, assim como a falta de autoridade também funciona em certos times, no curto prazo. Mas eu acho que, para você criar um negócio duradouro, uma era de conquistas seguidas etc., no geral você tem que ter um bom balanceamento de como vai fazer um ambiente.

Eu queria te perguntar sobre o Furyz, sobre sua história com o Furyz, de como você recrutou ele. Lembro que, enquanto ainda estava como assistant, você me falou assim: “pô, a gente até viu um ângulo em que ele poderia ser head coach, mas eu pedi para ele um tempo. Tipo, me dá um tempo de você assistente, que sua hora vai chegar.” Então como é essa história dele pela sua visão?

Bom, eu conheci ele através de outras pessoas, na verdade me indicaram ele. Eu não lembro exatamente se foi só uma pessoa, mas lembro que o Davizito, numa época atrás, comentou comigo sobre o nome dele e me falou que o Furyz era um mini Maestro, falou na época. Ele usou essa expressão: “ele é o mini Maestro”.

E aí eu achei interessante porque, quando conheci o Furyz, já no primeiro dia eu percebi que ele tinha alguma coisa diferente dos outros treinadores. Ele tem uma mescla entre saber o que está falando, ter conhecimento do jogo, uma visão boa do jogo, ampla. Ao mesmo tempo, não é um cara prepotente, de colocar a visão dele acima de tudo e foda-se, sabe? Ele é um cara que sabe dos limites dele.


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Foto: Reprodução/LTA Sul Flickr.

Então ele é um cara de quem o jogador adora receber feedback, porque, se ele está puto — nem sempre está —, mas quando está puto, ele está puto com razão. Então o jogador já sabe que é um negócio sério. Como ele não desperdiça as emoções dele à toa, os jogadores entendem muito bem ele muito rápido, sabe?

Além de ele ter essa parte de ser um cara muito focado em conhecimento de jogo, ele assiste o jogo o tempo todo. Ele é um cara que vem aprendendo as outras partes de como ser um treinador. Então esse tempo que eu pedi para ele, que você comentou, dele ser assistente… ele já tinha sido head coach no Academy há um tempo atrás, mas eu não queria que ele caísse na fogueira, vamos dizer assim, de ter um monte de pressão no ombro dele antes de ele ver como era a situação. E eu acho que o tempo que ele passou com o Thomas (Thinkcard) foi muito bom por causa disso.

Foto: Reprodução/Riot.

Aconteceu um negócio muito bizarro no final do Split 2 do ano passado: o Thomas viaja para um compromisso que tinha, não consegue voltar a tempo. No dia anterior à final, a gente fica sabendo às 10 da noite que ele não vai poder vir na final do dia seguinte. E ninguém se preparou para isso, nem o Furyz, nem ninguém, nem os jogadores.

Aí eu ligo para o Furyz e dou a notícia e, cara, é muito foda essa história, porque ele fica tenso e desesperado, fala: “meu Deus, eu não me preparei para isso” e tal. E dali eu e o Guerri fomos conversando com ele, passando essa segurança de que a gente confiava nele. E, cara, o trabalho que ele fez naquela final foi muito foda.

Então dali a gente já percebia que tinha esse potencial. Mas foi bom ele não ter essa pressão toda de uma vez? Eu acho que foi legal, assim como eu não tive também com o Peter. No meu ano com o Peter, por mais que eu já tenha assumido algumas funções de fazer discurso, de alguns tipos de gerenciamento, a pressão teoricamente ainda caía em cima dele.

Maestro com a INTZ em 2019 (Foto: Riot Games)

Então foi um bom ano para mim para aprender e ficar de lado ali. E era justamente o que eu falo para ele, o que eu falo para o Luuukz hoje: cara, aproveita que você não é head coach. Eu falo isso para eles: cara, é uma bênção você não ser head coach muitas vezes, porque você tem muito mais tempo, cabeça e tudo. Se você quiser pedir um dia e falar: “cara, não quero acompanhar esse treino aqui hoje, eu preciso preparar esse material aqui porque, sei lá, o Jojo está trolando no controle de visão”, você tem essa liberdade de trabalhar o dia inteiro nisso se quiser, entendeu? O head coach não.

O head coach tem que estar lá, tem que estar na frente, tem que estar falando com o jogador, tem que estar discutindo, tem que fazer o review. Então foi a mesma coisa que eu falei para o Furyz, é o que eu falo para o Luuukz hoje.

Então ele aproveitou muito bem essa época para se capacitar, para entender como funcionava. E aí ele já foi com muito… que bom que deu certo. E a gente foi para o internacional. Então hoje ele já tem experiência, a gente está muito mais confiante hoje, por exemplo, nesse internacional que a gente está indo, por causa disso.

Você considera que o Furyz já está no caminho de ser um dos melhores coaches do Brasil?

Cara, eu acho que sim. Na minha opinião, pelo menos, eu não tenho dúvida nenhuma há muito tempo. Mas vou te falar uma parada, isso é um desabafo meu também: eu não acho que a gente tenha excelentes coaches, mano, de verdade. Acho que a competição geralmente acontece com estrangeiros.

Então, na minha opinião, pessoalmente eu não conheço, mas o Enatron, por exemplo, e o Invokid fizeram um trabalho foda esse split. No split passado também, tá. A LOS não era um time ruim, sempre foi um time bom, um time chato de jogar contra, mas esse split foi mais ainda. Eles voltaram numa situação em que o Zest estava dando uma entrevista dizendo que estava depressivo. Então, assim, um coreano falando isso, cara, você tem que ter um trabalho forte por fora, no backstage, para recuperar essa situação. Então eu acho que geralmente os maiores competidores são esses.


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Foto: Reprodução/Riot.

Eu não acho que a gente tenha coaches muito bons aqui e staffs muito boas preparadas para lidar com a porrada que são esses jogadores daqui, tá ligado? Agora a gente vai ter uma leva gigantesca de jovens que está entrando agora no CBLOL. Eu acho que a gente está lascado, mano. Inclusive essa é uma das coisas em que eu mais tenho pensado esse ano, fazendo conteúdo etc. Eu quero voltar a fazer as partes de mentoria, aulas, seminários e tal, justamente para dar um help para a galera, para a gente ter pelo menos uma base aqui dentro, sabe? Que a gente não tem muito preparo aqui, na minha visão. Alguns dos treinadores que tinham um pouco mais de autoridade, um pouco mais de conhecimento, já pararam. E agora é complicado, mano.

Então eu tenho certeza absoluta de que o Furyz já é um dos melhores do país? Ele tem coisas para trabalhar, assim como todo mundo tem, mas para mim o Furyz e o Luuukz, tá? Para mim o Luuukz foi uma surpresa absurdamente grande esse split. Acho que o Luuukz também é um dos melhores do país, se não for o melhor no que ele faz, tá? Então acho que são dois caras excepcionais.

Cara, a outra pessoa que eu queria ouvir sobre é o Jojo. Porque eu acho que ele é um dos melhores suportes da história do país e a gente não hypa tanto a história dele. Então queria ouvir pela sua voz sobre o Jojo. Me conta algo que me ajude a hypar essa história.

Olha, o Jojo é um dos jogadores mais fantásticos com quem eu já trabalhei. Acho que ele, o RedBert, o Ceos — eu não tive a oportunidade de trabalhar —, mas acho que esses três nomes são absurdamente gigantescos e não tem discussão que fizeram uma era dourada dos suportes brasileiros, depois do Jockster lá e tal.

E, cara, o Jojo é interessante porque, apesar de ele ser ranzinza, meio ranzinza e meio encher o saco, falar que vai parar toda hora e tal, ele já é o mais longevo, praticamente. Ele está com 27, 28 anos, eu acho, e já é o mais longevo. Então ele aguentou bem, cara.

Acho que o Jojo é fantástico em vários sentidos, tá? Eu poderia passar uma hora falando do Jojo aqui, mas queria falar duas coisas específicas dele.

Foto: Reprodução/LoL Esports Flickr.

A primeira é a parte técnica. Quando você vai ficando mais velho, obviamente algumas coisas vão ficando mais difíceis de fazer. E ele sempre tratou isso com muita naturalidade. Quando ele não tem, tipo assim, a maestria 100% em alguma coisa, ele se esforça muito para conseguir. Mas ele também nunca deixa de pensar com outras cabeças, com outra pool.

Ele é um cara que nunca fechou a mente dele. Geralmente o jogador mais velho vai ficando mais dedo duro, vamos dizer assim, no dedo de cimento. E aí ele pega alguns bonecos que sabe que é bom, e é isso aí. “Ah, essa é minha pool”, tá ligado? E é muito comum você ver jogador velho, antigo, ter problema de pool. E o Jojo nunca teve problema de pool na carreira inteira dele, nunca teve problema de pool. Isso é sensacional, na minha opinião.

Ele jogar com todo tipo de champion, para mim, é o primeiro mérito dele: manter fresca na cabeça como jogar com cada coisa. Ele gosta muito de jogar coisas alternativas, de tipo arena e tal. Então ele constantemente está experimentando coisas novas. Acho que isso mantém ele muito jovem na cabeça, de certa forma, para o jogo. E ele nunca nega, assim: “ó, Jojo, estão jogando de Camille aqui, estão jogando de sei lá, de qualquer coisa suporte aqui, vamos tentar?” “Vamos lá. Vamos ver.” Então ele é muito bom nesse sentido.

E, cara, o segundo ponto dele é uma questão psicológica muito legal: ele é um cara que consegue defletir a pressão em cima dele, em cima do time dele, de uma maneira que eu não vejo em nenhum outro jogador. Nunca vi na minha carreira inteira.

Foto: Reprodução/LoL Esports Flickr.

Bom, ter o Tatu no time, eu não sei se a galera sabe, mas é difícil, tá? Tatu é um jogador difícil, cara, para dizer assim, para ser bem eufemista, tá? Ele é um jogador difícil. Ele é fantástico, mas é difícil. Tem uma personalidade complicada, forte e tal. É um cara que fala o que pensa e foda-se, entendeu? Não liga muito para jeito de falar. E ele é jovem também.

Então, para você ter… o Jojo foi campeão com a Aegis, que todo mundo fala que era um cara completamente complicado também, e agora está sendo campeão com o Tatu, que também é um cara difícil. Então, para você ter noção, ele tem esse jogo de cintura, entendeu? Sabe como lidar com essas personalidades fortes, difíceis, sabe cobrar um cara ali. Ele é um cara com quem todo mundo gosta de conversar; todos os jogadores do time gostam de conversar com ele. A staff sempre conta com ele quando precisa de alguma coisa.

E esse jeito dele, de ser ranzinza e tal, ele deflete muito a pressão. Às vezes a gente fala: “Jojo, tem que estar aqui 10 da manhã.” “Impossível, eu tenho compromisso”, ele fala. “Impossível, não consigo, não vai dar.” Mas 10 da manhã ele está lá, sabe? Então ele é esse cara de defletir essa pressão e manter um ambiente muito saudável, independente do que aconteça, desde que ele esteja feliz.

Quando ele chegou na FURIA, eu não sinto que ele estava tão contente assim. Acho que, pela forma como foi a saída dele da RED, foi muito chata, né? Ele saiu meio chutado, um monte de rumor falando que ele ia parar, que ele não levava a sério e tal. E, no fim, a RED realmente descartou ele. Tipo assim, escolheu o Frosty, que é um ótimo jogador também, mas descartou ele.

Então, quando ele chegou na FURIA, estava meio desgostoso, mas, quando foi pegando gosto de novo pelo jogo, pela competição e tal, cara, virou outro jogador.

Foto: Reprodução/LoL Esports Flickr.

Ele praticamente moldou o ambiente sem querer. Quando eu falo da gente subir a pressão, a gente sobe a pressão e ele mantém a pressão muito tranquila. Ele é um aliado bizarro nesse negócio de manter o ambiente saudável, sabe? Então esse tipo de valor… eu falo que, tipo assim, quando a gente perder o Jojo, cara, se ele quiser parar um dia, a gente está lascado, mano. Vai ter que achar alguma coisa parecida, mano.

A gente vai precisar do Jojo coach então?

É, exatamente. E ele não vai querer.

Foto: Reprodução/Riot Games
Sérgio 'Correslol' Fiorini

Sérgio 'Correslol' Fiorini

Jornalista nos Esports desde 2022. Tropa da Edificação. Jornalismo que incomoda.

Publicado emAtualizado

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