Ao deixar a posição de coach da KaBuM e voltar para a China, Wong “Tabe” Pak Kan chegou a mencionar em uma stream vários problemas que ocorreram durante sua passagem no CBLOL. O Mais Esports conversou exclusivamente com Tabe sobre este 1° split de 2019.
Tabe iniciou a entrevista falando sobre Leandro Ramos, fundador e CEO do e-commerce KaBuM: “Ele é um cara legal, uma pessoa que sempre me tratou bem. O problema é que ele não estava lá conosco na GH”.
BARREIRAS LINGUÍSTICAS
Um dos primeiros pontos abordados por Tabe foram as barreiras linguísticas que o treinador precisou enfrentar no CBLOL: “Quando eu cheguei no Brasil eu fiquei chocado. Era a minha primeira vez em São Paulo e eu pesquisei bastante sobre a cidade antes de ir para a KaBuM. Eu não sabia que as pessoas simplesmente não sabiam inglês. O nível de inglês lá era pior que no Japão ou na Coreia”.
Tabe acrescentou ter dificuldades em alguns momentos em restaurantes e lanchonetes. Logo depois, ele mencionou como a linguagem afetava sua relação com os jogadores: “Os jogadores conversavam entre si em português e só falavam comigo em inglês quando eu me dirigia a eles. Eu encontrei uma grande dificuldade nisso e eu falei para o nosso manager [Leonardo Pierroti] que eu queria aprender português. Ele me respondeu dizendo que não tínhamos orçamento suficiente para isso”.
“Na maioria das vezes quando eu falava com eles em inglês, cinco segundos depois eles começaram a falar entre si em português. Eu não entendia sobre o que eles estavam falando”, continuou.
De acordo com o treinador, o manager deu a ideia para Tabe jogar League of Legends com chineses que moram em São Paulo e eram fãs da KaBuM e, em troca, ele poderia aprender um pouco de português. “Na época eu não falei nada mais sobre e simplesmente comecei a aprender, através do YouTube, algumas coisas básicas do português”.
FALTA DE RESERVAS, RELAÇÃO COM JOGADORES E SOLOQ
Quando foi contratado, o vice-campeão mundial havia explicado que a KaBuM poderia ser forte no Brasil, mas não era forte comparada com os outros times do Wildcard. “Eu recomendei contratar pelo menos dois subs, mas eles responderam ‘A não Tabe, nós queremos utilizar estes mesmos cinco jogadores'”.
O treinador explica que não queria necessariamente contratar dois coreanos, mas que independente da nacionalidade, ele iria recomendar “boas contratações que o time precisava”. Ele completa: “Eu perguntava o porquê [não podíamos contratar] e eles me falavam ‘Tabe, todo o nosso orçamento é para você agora. Você tem um preço alto para a KaBuM’. Eu não gosto de usar isso como desculpa, pois a KaBuM foi campeã e atuou no MSI e no Mundial. Então eu tinha confiança nos cinco jogadores, mas eu falei para eles ‘Vocês perderam para o Japão’ e que se outros times do CBLOL trouxessem jogadores coreanos, eles iriam vencer a KaBuM”.
Tabe repetiu diversas vezes durante o telefonema de uma hora que não queria culpar os jogadores e elogiou bastante o mid laner da equipe: “Dynquedo era um jogador que toda vez que eu falava para ele mudar em algo, ele iria tentar melhorar. Durante todo o CBLoL, ele era o jogador que continuava jogando consistentemente bem. Ele gerenciava bem seu tempo entre o trabalho e sua namorada. Ele estava realmente se tornando um jogador modelo para os brasileiros. Quando eu saí, ele foi o único que me deu um forte abraço. Eu me senti feliz, pois um treinador sempre quer o reconhecimento de seus jogadores.”
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“Eu fico realmente triste durante meu tempo como treinador da KaBuM pois eu não senti que eu consegui ensinar nada para eles. Em alguns momentos eles não me escutavam”, desabafou.
O treinador também chegou a falar, na sua stream e durante a conversa com o Mais Esports, sobre os jogadores não jogarem muitas partidas na soloQ. Tabe explica que, após os treinos, você precisa praticar nas filas ranqueadas até sua hora de dormir e completa: “Com certeza você vai ter hora para descansar. Se você vencer, você tem um feriado. Mas, se você perder, você não tem feriado. Essa era a punição que eu queria dar aos jogadores, mas o manager não liberou. Ele comentou que, talvez devido à Lei ou alguma desculpa assim, não poderíamos punir os jogadores. Mas eles me puniram, sabe?”.
Os jogadores da KaBuM comentavam para Tabe que a soloQ brasileira era ruim e seria inútil jogar nela: “Eu falava ‘você só pode me falar isso se estiver no top 10, 15’. Mas eles estavam longe disso”.
Comentamos com Tabe que muitos jogadores pensam isso da soloQ brasileira. Perguntado se ele acredita que os jogadores podem de alguma maneira melhorar, mesmo com os problemas da nossa soloQ, ele respondeu: “Com certeza eles podem evoluir. Até eu mesmo… Eu tive quase 700 jogos. Eu joguei bastante, pois assim eu poderia ensinar eles fundamentos da fase de rota. Qualquer um pode fazer os picks e bans, falar que Zoe é um counter da Lissandra. Certo? Uma pessoa normal sabe isso. A questão é saber como jogar esta lane contra a Lissandra, me entende? Você precisa jogar”.
“Eu pedia ‘pessoal, vocês podem jogar mais soloQ?’ e eles respondiam que sim, mas não jogavam”, completou.
O treinador comentou sobre Lee “Shrimp” Byeong-hoon também continuar jogando soloQ por horas e horas – mesmo com a má qualidade da fila brasileira. “Shrimp chegou a me perguntar, às 5 da manhã, porque eu jogava tanto. Eu respondi: ‘se eu não jogar, como eu posso treinar meu time?'”.
Tabe repetiu mais vezes durante a chamada que não colocava a culpa nos jogadores pelos resultados: “O principal problema é que não tínhamos jogadores reservas. Tendo apenas cinco jogadores, sem a KaBuM querendo novos jogadores… Eles não tinham uma competição interna”.
Toda vez que o treinador pedia para ter mais jogadores, o manager apontava que a organização não tinha dinheiro para isto: “Ele me falava que eu tinha o maior salário e eu tinha a maior responsabilidade”.
DEMISSÃO, RENEGOCIAÇÃO E NOITES NO CHÃO
A KaBuM teve um péssimo início do CBLoL, chegando a ficar com seis derrotas seguidas na competição, e o treinador falou sobre o período: “Eu duvidei de mim diversas vezes, eu estava chorando no meu quarto. Eu me sentia muito mal. Mas, na época, eu não falei nada sobre a KaBuM. Eu queria ver a KaBuM vencer, eu queria ver Hiro, o treinador campeão, trabalhando. Eu queria ver a KaBuM ser campeã novamente e assim, aprender. Certo?”.
Após a demissão de Tabe, Matheus “Dynquedo” Miranda se posicionou a favor do treinador e pediu para que ele continuasse no time. “Eu realmente agradeço por tudo para ele. Eu lembro que ele falou para a organização ‘Tabe é muito bom no jogo, tão bom quanto os jogadores, mas o problema é que ele é muito rígido.’ Eu sou agressivo. Quando eu via que Dynquedo fazia algum erro eu perguntava ‘Por que você foi tão noob? Como você ganhou o MVP no ano passado?’ Mas este é meu estilo, entende?”.
O treinador também explicou que prometia recompensas, como pagar jantares, caso os jogadores vencessem.
Com a entrada de Hiro, Tabe teria seu salário reduzido caso quisesse continuar na equipe. “Eles me ofereceram 20% do meu último pagamento, mas negociamos”. Após fazer algumas contas, ele comentou que passou a receber algo em torno de 55% do salário antigo.
Outra grande polêmica dita por Tabe em sua stream é que ele precisava dormir no chão. “Eu precisei dormir em um colchão no chão em outro quarto, com o Halier, e ele me contou estar lá há um ano. Nós dormíamos um do lado do outro praticamente, como um casal [risadas]. Eu não deveria dormir no chão, mas eu só queria vencer e por isso fiquei”.
VONTADE DE VENCER… E DE JOGAR
Tabe voltou a mencionar o fato de Leandro estar fora da gaming house e comenta que, durante esta situação, ele ficou com tanta raiva que resolveu pela primeira vez falar diretamente com o CEO da KaBuM.
“[Eu disse] ‘Chefe, você me contratou e eu vim da China. Você achou que eu iria trollar o seu time? Eu realmente estou tentando duro’. E também comentei para ele que em 2016 eu joguei na LPL e eu vi os problemas do time, que não tínhamos um shotcaller e etc. Eu realmente queria jogar no CBLoL. Eu falei que precisava de apenas uma semana e estaria no Challenger. E, em uma semana, eu estava com mais elo que todos os jogadores da KaBuM, com 556 pontos. Eu poderia jogar. Em 2016, meus adversários eram Meiko e Mata. Eu tinha confiança suficiente para jogar no Brasil. Mas eles queriam continuar usando a line-up principal”, contou.
“Eu não sou o tipo de pessoa que viria para o Brasil, pegaria meu salário e iria embora. Eu realmente queria vencer. Se eu não quisesse isso, eu estaria como comentarista da LPL em Xangai. Toda minha ideia de vir para o Brasil era que eu teria a habilidade e coragem. Mas tudo que eu queria era bloqueado pelo manager. Como o ‘use os cinco jogadores, não temos dinheiro para outros jogadores, pois gastamos em você'”.
Buscando consertar os problemas da KaBuM, Tabe se propôs diversas vezes para jogar. “Eles não deixavam eu jogar. Toda vez que eu queria jogar uma scrim, o manager falava ‘Tabe, você não pode jogar'”, e ele explica que, mesmo com Hiro querendo testá-lo, o manager não permitia.






