Negligenciado e resiliente: o competitivo brasileiro de TF2

Geral
De:Pedro Mitke-
August 24, 2021

Quando se pensa em jogos competitivos desenvolvidos pela Valve, Counter-Strike: Global Offensive e DotA 2 são os primeiros esports que surgem na mente da maioria das pessoas. Afinal, os dois são os games mais jogados da empresa, ambos ocupando o topo da lista de usuários ativos na Steam a todo o momento e possuem cenários de esporte eletrônico consolidados e bem sucedidos ao redor do mundo. 

Apesar disso, outro jogo da Valve, mais antigo do que o próprio CS:GO e o DotA 2, é figura recorrente entre os mais jogados da plataforma há anos e possui um cenário de esports pouco conhecido e explorado: Team Fortress 2, ou TF2 para os mais íntimos.

Mesmo com um imenso potencial como esporte eletrônico e uma comunidade extremamente apaixonada pelo FPS, sua desenvolvedora nunca se importou o suficiente para cultivar um competitivo sério ou realizar torneios oficiais como fez com suas outras franquias, o que resultou no jogo nunca chegando aos holofotes quando o assunto é esports.

Continue após a publicidade

Lançado originalmente em 24 de agosto de 1996 como um mod para Quake, a série Team Fortress completa 25 anos nesta terça-feira (24) e o Mais Esports preparou um especial falando sobre a história do jogo e seu competitivo criado inteiramente pela comunidade. Tudo contado pelas palavras de Jonathan ”Sonikro”, considerado um dos maiores e mais vitoriosos jogadores de TF2 do Brasil. 

TF2 Team Fortress 2

O surgimento de Team Fortress

A primeira versão de Team Fortress surgiu em 1996. Na época, o Quake, desenvolvido pela id Software, era o FPS do momento ao lado de Doom e uma grande referência dentro do gênero. Apaixonados pelo jogo e pelas ferramentas que ele disponibilizava para a criação de mapas e até mesmo mods, o trio Robin Walker, John Cook e Ian Caughley teve a ideia pioneira de desenvolver um modo onde os jogadores poderiam escolher classes diferentes e que possuíam funções e armas distintas em um campo de batalha moderno.

Batizado de Team Fortress, o mod de Quake foi um grande sucesso e rapidamente se tornou um dos mais jogados pela comunidade. Originalmente, o jogo teria apenas cinco classes, porém os desenvolvedores optaram por adicionar mais quatro, totalizando nove personagens com mecânicas e estilos de jogo distintos.

Com a popularidade do FPS cada vez maior, o trio acabou sendo contratado pela Valve e passou a desenvolver uma sequência.

Como era o mod de Team Fortress criado no Quake (Foto: Reprodução)

Em 1999, Team Fortress Classic foi lançado como um mod para Half-Life e foi disponibilizado de forma gratuita para quem possuísse o jogo. Agora desenvolvido inteiramente na engine Source, o FPS viu sua popularidade aumentar ainda mais e novas ideias de sequências como o TF: Brotherhood of Arms e TF: Invasion surgiram, porém acabaram sendo descartadas.

Em 2003, Team Fortress Classic foi lançado como um jogo próprio, fazendo com que a franquia deixasse de ser apenas uma modificação e se tornando pela primeira vez um título completo vendido pela Valve. Com uma ampla comunidade e uma popularidade crescente, não demorou muito para que uma sequência fosse anunciada.

Team Fortress Classic (Foto: Valve)

Em 2006, durante a EA Showcase daquele ano, Team Fortress 2 foi mostrado pela primeira vez para o público. O jogo seria lançado em outubro de 2007 e, diferente de seus antecessores, teria uma temática e estilo gráfico mais leve, onde todas as classes jogáveis contariam com uma história de fundo carismática e seu universo parecia com algo tirado de uma HQ de comédia.

O lançamento do jogo foi um tremendo sucesso e Team Fortress 2 criou uma comunidade extremamente apaixonada pelo jogo. De lá para cá, TF2 continua aparecendo como um dos títulos mais jogados na Steam diariamente.

Porém, mesmo com o game sendo um FPS competitivo e apresentando bons números, a Valve nunca se mobilizou para desenvolver um cenário de esports. Apesar disso, nunca faltou esforço por parte da comunidade, que decidiu criar seu próprio competitivo com ligas e até mesmo torneios presenciais.

Como funciona o competitivo de TF2

Personagens do Team Fortress 2 (Foto: Valve)

Team Fortress 2 conta com 9 classes jogáveis: Scout, Soldier, Pyro, Demoman, Heavy, Engineer, Medic, Sniper e Spy — cada uma com armas, funções e estilos de jogo diferentes, além de vantagens e desvantagens. No modo casual, a maioria das pessoas não joga de uma maneira tão séria, então cada um escolhe o personagem que quiser e simplesmente cumpre o objetivo do mapa e elimina seus adversários.

Já no competitivo isso não acontece e as vantagens e desvantagens de cada classe são levadas em consideração de forma mais séria. Entre os modos competitivos, dois se sobressaem: Sixes e Highlander. Apesar disso, mesmo sendo menos comuns, competições de 4×4, Prolander e Ultiduo também acontecem. 

No Sixes (6×6), dois times com seis jogadores disputam um mapa que conta com cinco pontos de controle e ambos fazem o papel de ataque e defesa ao mesmo tempo, tentando dominar o próximo ponto adversário enquanto protege o seu próprio. O time que dominar todos os pontos vence a partida. 

Neste modo, o mais popular do competitivo do Team Fortress 2, é onde podemos ver o TF2 jogado de forma mais otimizada possível e onde, na maioria das vezes, apenas certas classes são usadas.

Por terem uma mobilidade acima da média e uma capacidade maior de dano em relação aos outros personagens, Scout (2), Soldier (2) e Demoman (1) compõem cinco dos seis integrantes dos times. A vaga final fica com o médico, responsável por curar os aliados e utilizar a ÜberCarga, habilidade que deixa ele e um companheiro invulneráveis por um curto período de tempo, o que possibilita avanços no mapa. 

Apesar do Sixes contar com classes preestabelecidas, não é proibido utilizar outros personagens. Ocasionalmente, em situações específicas, jogadores acabam selecionando Sniper ou Spy na tentativa de eliminar adversários que não estão esperando ou Heavy e Engenheiro em momentos defensivos, geralmente quando existe o risco de se perder o último ponto e consequentemente o jogo.

Composição padrão do Sixes conta com dois Scouts, dois Soldiers, um Demoman e um Medico (Foto: Valve)

Já no Highlander, os times se enfrentam em um formato 9×9 onde cada jogador seleciona uma classe que não pode ser repetida por outra pessoa. Diferentemente do Sixes, isso faz com que todos os personagens do jogo estejam presentes no servidor a todo o momento, criando uma dinâmica diferente e possibilitando a entrada de classes pouco utilizadas no 6×6, como o Pyro.

Este modo conta com partidas disputadas em formato Payload, onde o time do ataque deve empurrar um carrinho de um ponto até o outro no menor tempo possível e o da defesa precisa impedi-los ou fazer o máximo para atrasá-los. Vence quem fizer o percurso em menos tempo. 

Tanto o Highlander quanto o Sixes também contam com jogos no modelo King of The Hill, onde as equipes disputam pelo controle de um ponto central e um contador decrescente determina quanto tempo falta para cada time vencer o mapa. Quando uma equipe domina o ponto, seu cronômetro começa a descer enquanto o do outro time para. 

Além do Sixes e do Highlander, outros modos competitivos existem, apesar de serem menos populares. No 4×4, um Scout, um Soldier, um Demoman e um Médico de cada time se enfrentam, enquanto que no Ultiduo (2×2) cada equipe conta apenas com um Soldier e um Médico para cada lado. 

Esses modos competitivos possuem ligas, todas organizadas pela comunidade, em diversas regiões do mundo. No Brasil, por exemplo, existem organizadoras dedicadas a competições de Sixes e Highlander como a Federação Brasileira de Team Fortress 2 (FBTF) e a Vanilla Fortress.

Dentro das próprias ligas existem divisões que separam os jogadores por nível. Na maioria das vezes, as categorias dos torneios são: Aberta, Acesso, Central e Elite. Dependendo do resultado de um time, ele pode acabar sendo promovido ou rebaixado na próxima temporada.

Sonikro, um dos maiores jogadores de TF2 do Brasil

Como já dito anteriormente, a Valve nunca se importou em criar um competitivo oficial para o Team Fortress 2 ou buscou profissionalizar o jogo como fez com o Counter-Strike e DotA 2. Todos os modos, torneios e ligas são criações de membros da comunidade e essas competições seguem vivas por conta dessas pessoas que amam o jogo e na maioria das vezes não esperam retorno financeiro algum.

Entre eles está Jonathan ”Sonikro”, considerado um dos maiores jogadores de TF2 do Brasil e que coleciona diversos títulos no FPS.

Jonathan ”Sonikro” (Foto: Arquivo pessoal)

Fã de jogos FPS desde cedo, Sonikro teve seu primeiro contato com o Team Fortress no TF Classic quando tinha apenas 11 anos de idade. Aproximadamente um ano depois, o TF2 seria lançado e de lá para cá já são mais de 14 anos jogando e competindo no cenário brasileiro do jogo. 

“Eu tive meus primeiros contatos com jogos muito cedo, comecei a jogar com oito, nove anos”, explicou o jogador em entrevista para o Mais Esports. “Desde os meus 11 anos eu já jogava Team Fortress Classic e eu sempre joguei bastante jogos de tiro no estilo Quake. Então quando lançaram o TF2 em 2007 foi um jogo que me brilhou os olhos, era basicamente um “Quake moderno”, completa.

“Comecei a jogar no ano de lançamento, tinha 12 anos na época e pedi o TF2 de aniversário para o meu pai. Lembro que o jogo era vendido pelo pacote do Orange Box, que vinha o Team Fortress 2, Portal e Half-Life 2 e foi aí que começou, hoje já tenho 26 anos, mais de 14 jogando esse jogo”, comentou. 

Apesar de jogar o Team Fortress 2 desde o lançamento oficial em 2007, demorou um pouco para que Sonikro entrasse no cenário competitivo. Em 2011, ele começou a chamar a atenção dos jogadores e acabou recebendo um convite para participar de sua primeira scrim de Sixes enquanto jogava casualmente nos servidores da Valve.

“Em 2011 foi quando eu realmente comecei a jogar o competitivo. Eu estava no casual quando um dos membros da Monster, que na época era um dos melhores times de TF2,  me chamou para participar de um mix de 6v6 e eu aceitei. O meta do 6v6 sempre foi um Médico, dois Scouts, dois Soldiers e um Demoman mas eu jogava de Pyro e isso era um choque para todo mundo. Ou eu era amado pelas pessoas porque eu conseguia matar todo mundo de Pyro ou era odiado por outras por ser um Pyro jogando 6v6”, brinca.

“Não foi fácil jogar dessa maneira mas foi isso que me colocou no competitivo. Depois que eu comecei a jogar mix e passei a ser mais conhecido na comunidade, fui convidado para jogar no meu primeiro time chamado Renegades, ainda em 2011.”

“Comecei a jogar na divisão de Acesso da Federação Brasileira de Team Fortress 2 (FBTF), e como existiam as divisões Aberta, Acesso, Central e Elite eu estava em uma das mais baixas na época. Logo na primeira temporada que joguei já fomos campeões e eu fiquei em êxtase. Tinha 16 anos e sai correndo gritando pela casa. Foi isso que despertou meu gosto pelo competitivo”, explica.

(Foto: Valve)

Apesar do sucesso como Pyro, Sonikro se viu obrigado a mudar para uma classe mais convencional do Sixes. Mesmo conseguindo vencer nas divisões mais baixas usando o personagem, quanto mais o nível subia mais difícil ficava utilizá-lo e por conta disso ele realizou a transição para Soldier.

“Desses 10 anos de carreira competitiva muita coisa mudou e eu migrei de classe algumas vezes. Eu aposentei o Pyro relativamente cedo, durou só uns dois ou três anos, e troquei para Soldier, que é uma classe mais padrão do 6v6. O Pyro tem um limite, dava certo nas divisões baixas mas conforme você vai aumentando o nível ele para de funcionar porque os outros jogadores sabem jogar contra. Nas últimas temporadas eu também passei a jogar de Médico, essas duas com certeza são as minhas principais classes”, cita.

Após anos competindo, Sonikro decidiu montar seu próprio time. Em 2017 ele fundou o Sonikro Solutions, que segue junta apesar de não aparecer em torneios tão frequentemente como antes. De lá para cá, a SS conquistou diversos títulos e se firmou como uma das maiores e mais vitoriosas equipes de Team Fortress 2 do Brasil.

“Em 2017 eu abri meu time e estamos juntos desde então, o que é muito tempo para uma equipe de Team Fortress 2. Acho que se você contar a quantidade de vitórias e pela questão do tempo talvez podemos ser considerados o time mais vitorioso do Brasil”, explica.

“Em 2019, último ano que jogamos de forma mais séria, fomos campeões da divisão elite dos dois principais campeonatos na época e em 2020 acabamos parando de competir. Mas em 2021, por conta da pandemia e com todo mundo em casa, a gente voltou mesmo bem enferrujado e ficou em segundo nas duas principais ligas brasileiras”.

“Então atualmente nós não somos a atual campeã do Brasil, esse posto é da Taste The Secret e eles são o melhor time hoje, mas em número de vitórias nós vencemos muita coisa nesses quatro anos que ficamos juntos e é bem possível que a Sonikro Solutions seja uma das maiores se não a maior [equipe de TF2 do Brasil]”, finaliza.

O competitivo brasileiro de TF2

Apesar do Team Fortress 2 ter sido lançado em 2007, as primeiras competições do jogo no Brasil ocorreram apenas em 2008. A organizadora pioneira foi a Federação Brasileira de Team Fortress 2 (FBTF), com a primeira edição da Liga Brasileira sendo realizada em 2009. Com o passar dos anos e com mais jogadores passando a integrar a comunidade de TF2, outros torneios realizados por outras organizadoras também foram surgindo.

“Eu já jogava TF2 quando surgiram os primeiros torneios aqui no Brasil, mas ainda era muito criança e não estava no mundo competitivo”, continua Sonikro. “Historicamente falando, a primeira organizadora que surgiu foi a Federação Brasileira de Team Fortress 2 (FBTF)”, explica.

“Até hoje o fórum dela continua online, mas hoje serve mais como uma referência histórica. As primeiras competições da FBTF começaram em 2008 e a primeira edição da liga brasileira foi em 2009. Hoje em dia nós temos outras organizadoras, mas a FBTF ainda existe e por muitos anos foi a única”.

Apesar do Team Fortress 2 contar com ligas criadas pela comunidade e jogadores dedicados, Sonikro afirma que não se passava pela cabeça das pessoas da época que um dia poderiam ganhar dinheiro jogando. O competitivo do jogo sempre foi amador, as competições não tinham premiações e a Valve nunca sinalizou nenhum tipo de intenção de desenvolver um possível cenário de esports oficial para o TF2.

“Eu nunca senti que a comunidade de Team Fortress 2 tinha essa mentalidade de esports que temos hoje, ser um atleta profissional e ganhar dinheiro com isso. No começo do TF2, não se passava na cabeça dos jogadores que elas poderiam ser profissionais de um jogo online. No CS isso podia acontecer mas no TF2 eu acho que esse pensamento não era muito buscado pelas pessoas”, explica.

“Era um competitivo bem amador, nunca teve dinheiro envolvido e a única premiação hoje em dia é uma medalha dentro do jogo, o que nem existia antigamente. Você ganhava o campeonato e o prêmio era uma publicação no fórum”, conta Sonikro.  

“A Valve nunca deu apoio nenhum ao competitivo de TF2. Desde o lançamento, ela lançou vários updates legais de conteúdo para o jogo, mas eles sempre foram focados para o casual e sinto que por causa disso o TF2 nunca teve um futuro competitivo. Por mais que o jogo tivesse um potencial gigantesco para ser um esport, a Valve nunca tratou o Team Fortress 2 como um jogo competitivo, ela sempre viu o jogo apenas como um jogo casual”.

Algumas das medalhas conquistadas por Sonikro durante a carreira (Foto: Sonikro)

Mesmo assim, o campeão brasileiro citou algumas oportunidades e regiões fortes para o TF2“Separando por regiões, a América do Sul é muito fraca nesse quesito de organizar torneios. Na América do Norte e na Europa, a gente já teve campeonatos muito maiores, torneios que chegaram a ser presenciais, com torcida indo assistir e prêmio em dinheiro para os times, o que mostra o potencial”, conta.

“O principal torneio de TF2 do mundo é o Insomnia, que é muito legal de assistir e tem uma grande premiação, mas nem ele e nenhum outro é patrocinado pela Valve. Todos esses torneios são frutos de esforços da própria comunidade”, completa.

“A Valve enxerga o CS e o DotA 2 como seus jogos competitivos, mas não o TF2. Tanto que só fomos ter um matchmaking competitivo oficial da Valve em 2016, quase dez anos depois do lançamento, e que não deu certo. Tudo o que temos de competitivo no Team Fortress 2 foi criado pela comunidade, sejam os formatos, as organizadoras e inclusive os servidores”. 

E, nesse quesito, ele dá o mérito total para a comunidade. “O que sempre sustentou e continua sustentando o Team Fortress 2 até hoje é a comunidade, não é a Valve. Isso é realmente incrível, o TF2 está aí com 14 anos nas costas e está sempre no top 5 dos jogos mais jogados da Steam. Mesmo com a Valve negligenciado o jogo e com ele sem receber grandes atualizações faz anos, a gente pode ver que ela fez um bom trabalho criando ele, porque se não ele não teria toda essa comunidade que realmente ama o jogo”, cita.

O cenário internacional

Diferentemente do Brasil, o cenário internacional de Team Fortress 2 é mais profissional. Nos Estados Unidos e na Europa, os principais torneios contam com premiações em dinheiro e alguns deles possuem etapas que são disputadas em LAN. Para participar, os times precisam pagar inscrição e o competitivo é tratado de maneira mais séria.

“A premiação da última edição da liga norte-americana foi de mais de 36 mil dólares, por exemplo. Lá fora os times pagam uma quantia para jogar os torneios, existe uma inscrição e por isso que tem esse dinheiro para ser distribuído”, conta Sonikro.

Insomnia, o maior campeonato presencial de TF2 (Foto: David Portass)

“Tentamos fazer isso na América do Sul, mas aqui você tem poucos jogadores dispostos a gastar dinheiro no Team Fortress 2 de forma competitiva, então é muito difícil fazer um campeonato com uma premiação bacana. Nos Estados Unidos isso é comum e eles ainda tem esperança. Mas claro, se você comparar 36 mil dólares com qualquer premiação de CS e DotA isso não é nada”, lamenta.

“Outra diferença está no número de times participantes das competições. A última edição da Copa FBTF aqui no Brasil, que aconteceu esse ano, teve ao todo 34 times inscritos divididos em todas as divisões. É um número considerável para um jogo que se você parar para pensar o competitivo está morrendo. Mesmo assim, se você comparar com os cenários da América do Norte e da Europa, 34 equipes é muito pouco, lá fora eles tem muito mais do que isso”. 

Por se tratar de um cenário basicamente amador e que não possui muitos torneios onde times de todo o mundo podem se enfrentar, não é fácil saber qual é a melhor região de Team Fortress 2 do planeta. Apesar da América do Norte ter os considerados melhores times, nunca uma equipe brasileira enfrentou uma do NA ou da Europa.

Apesar disso, Sonikro acredita que o nível de habilidade dos brasileiros é tão bom quanto dos norte-americanos e europeus. Porém, o que realmente faria a diferença em sua opinião seria no mental, onde ficaríamos atrás.

“Eu sinceramente acredito que o brasileiro tem skill o suficiente para jogar de igual para igual com qualquer time do mundo, mas o que falta é a seriedade. Aqui no Brasil nosso cenário é bem menos sério do que lá fora e por conta disso eles são muito mais estratégicos e pensam mais no jogo”, cita.

“O pessoal do Brasil entra no servidor para dar tiro. Ele quer trocar bala, é muito braço e as vezes pouca cabeça. Eu acho que se um time brasileiro fosse competir com o pessoal de fora, possivelmente perderia por falta de estratégia, mas não por skill”.

Ele também afirmou que por um certo tempo ele participou de um time que tinha a ideia de viajar para competir no Insomnia, principal torneio presencial de TF2 do mundo.

“Teve uma época que um pessoal montou um time para a gente competir no Insomnia, isso bem antes da pandemia. A gente ia juntar um dinheiro do nosso bolso para mandar um time para fora do Brasil e competir no principal torneio de TF2. Apesar de não termos ido, temos alguns poucos jogadores brasileiros que já jogaram em times de fora e vimos que a habilidade para competir nós temos”.

Insomnia, o maior campeonato presencial de TF2 (Foto: David Portass)

O lançamento de Overwatch e a tentativa falha da Valve

Na opinião Sonikro, o auge do Team Fortress 2 foi entre 2014 e 2015. Os updates eram constantes, o número de jogadores continuava em alta e ele vivia uma das melhores épocas do competitivo do jogo. Porém, as coisas começaram a desandar com o lançamento de Overwatch, o FPS da Blizzard que acabou se tornando um concorrente direto do TF2.

Muitos jogadores de alto nível viram uma oportunidade no OW e acabaram decidindo migrar, o que prejudicou o competitivo do TF2. 

“A minha primeira impressão de que as coisas começaram a decair foi com o lançamento do Overwatch em 2016. Antes da chegada do FPS da Blizzard, o pessoal do competitivo estava muito engajado, tinha bastante torneio e bastante time. Lembro que nessa época eu tinha acabado de entrar em um time para jogar de Médico e o time simplesmente acabou antes mesmo de disputar um campeonato porque vários membros da equipe decidiram migrar de jogo”, explica.

“O Overwatch foi muito hypado na época e fez muitos jogadores que tinham esperança de um competitivo sério deixarem o TF2”, completa.

“O TF2 sempre teve muitos jogadores realmente dedicados ao jogo, que passavam horas estudando vários aspectos, mas isso realmente só se paga com um cenário competitivo sério, onde você tem capacidade de crescer e ganhar dinheiro com isso. Só que no Team Fortress 2 ninguém nunca teve essa oportunidade. As pessoas jogam Team Fortress 2 por amor, elas não jogam por fama ou por dinheiro, você não vai ganhar nada disso aqui”.

Overwatch (Foto: Blizzard)

“Em comparação, o Overwatch já nasceu com esse aspecto competitivo. No lançamento já tinha matchmaking e até campeonatos da própria Blizzard. Por conta disso, esse pessoal que tinha uma skill muita alta no Team Fortress 2 decidiu migrar de jogo porque eles viram mais futuro. Por conta do sucesso do OW, vieram muitos jogos competitivos de FPS como VALORANT e o novo Quake e o pessoal começou a ter opções de jogos muito mais focados no competitivo”, explica Sonikro.

Com o jogo perdendo sua popularidade por conta da chegada do Overwatch, a Valve decidiu, quase dez anos depois do lançamento de Team Fortress 2, tentar criar um modo competitivo de matchmaking oficial para o jogo.

Porém, a desenvolvedora falhou miseravelmente nesse aspecto. Os modos de jogo não eram iguais aos criados e amados pela comunidade e tinham regras diferentes, o que fez com que os jogadores preferissem continuar jogando em servidores da comunidade com os moldes das partidas tradicionais.

“A Valve até tentou uma vez investir no competitivo. Ela se juntou com os principais jogadores da América do Norte para trazer o competitivo para dentro do jogo e se tornar algo oficial, não algo criado pela comunidade. Lançado em 2016, foi o update que trouxe os servidores casuais e competitivos da própria Valve, e, para mim, essa foi a última tentativa da Valve de investir no competitivo do TF2. E foi um fracasso”. 

“O matchmaking do modo casual deu muito certo, tirando o problema de bots que o jogo vive hoje. O modo é bom e a maior parte da comunidade de TF2 joga de forma casual de qualquer maneira. Só que o modo competitivo oficial não deu certo e a Valve nunca tentou arrumar, ele não veio do mesmo jeito que a comunidade jogava antes, veio com modos diferentes e isso não agradou o pessoal”.

“Se essa ideia do matchmaking competitivo da Valve tivesse dado certo, ela seria com certeza a principal porta de entrada para aumentar o cenário competitivo. Mas não deu certo e hoje se você abre o jogo e busca uma partida no competitivo você não vai achar ou vai encontrar uma partida completamente aleatória e desbalanceada”, completa.

O futuro do competitivo de TF2

TF2
(Foto: RGL)

Team Fortress 2 completa 14 anos em 2021 e é um jogo que a Valve aparentemente não tem interesse em criar um cenário competitivo oficial. Por conta disso, é difícil ver um futuro promissor para os jogadores de alto nível do FPS na visão de Sonikro. A concorrência de jogos com aspecto profissional mais consolidado também é algo que prejudica o TF2 e seu lado competitivo. 

Mesmo não acreditando em um futuro onde o TF2 se torne um esport convencional, Sonikro diz que o espaço para novos jogadores no competitivo existe e que o número de inscritos nas principais ligas brasileiras nunca foi tão alto como hoje em dia. 

“É difícil você ver um futuro para o competitivo de um jogo de 14 anos que a Valve não dá mais suporte. Hoje os novos jogadores que estão entrando nesse mundo de jogos competitivos tem muito mais opções do que antigamente e não é fácil chamar eles para o TF2. Apesar disso, a última edição da FBTF teve um número considerável de times inscritos e a maioria deles era das divisões baixas, inclusive foi a primeira vez que tivemos uma divisão Iniciante, com oito equipes participando dela”, cita.

Mesmo que novos jogadores apareçam, Sonikro explica que o cenário sempre recebe os novos jogadores, mas “não é a mesma coisa de 2011 até 2014”. “São campeonatos que no máximo você vai ganhar uma medalha no seu perfil. Mesmo no mais alto nível você joga TF2 pela diversão e não para seguir uma carreira de esports. De qualquer forma, o cenário brasileiro e os torneios continuam presentes, existem campeonatos da LBTF, Vanila Fortress, UGC e outras organizadoras”.

“Para mim, o número de jogadores de TF2 vai continuar crescendo, mas a comunidade competitiva é do tamanho de um grão de areia em relação ao geral. O Team Fortress 2 foi um jogo desenvolvido com um foco para o casual, então se você tiver 80 mil pessoas online jogando o jogo, menos de mil devem estar jogando competitivo. Eu creio que o TF2 vai continuar crescendo porque ele é um jogo muito bom, para ele sobreviver por 14 anos e ainda estar no top 5 da Steam, é porque algo de bom ele tem, mas não é o competitivo que mantém o TF2 vivo hoje e ele não é o responsável por esses números”, completa.

TF2
(Foto: HiGPS)

Sonikro ainda deu seu palpite sobre o que a Valve poderia fazer, caso ela realmente quisesse, para implementar um possível modo competitivo oficial no Team Fortress 2 e eventualmente transformá-lo em um esport.

“A primeira coisa seria arrumar o problema com os bots que o jogo vive atualmente no casual. Ninguém começa jogando um jogo diretamente no competitivo, então se sua experiência casual for ruim você não vai ter gente no competitivo”, cita.

“Depois disso, a Valve precisaria arrumar o matchmaking competitivo, o que era a esperança da comunidade. No CS, você aperta um botão e já está em uma partida ranqueada, enquanto que no Team Fortress 2 você precisa conhecer alguém que que vai te apresentar para essa comunidade, vai ter servidor com senha e não é uma coisa tão simples como como deveria ser”, completa.

Com isso fora do caminho, a Valve teria então um novo foco: ouvir a comunidade. “Se a Valve um dia quiser transformar o TF2 em um jogo competitivo, ela precisa colocar o competitivo como um modo oficial do jogo usando os moldes do que foi criado pela comunidade. Então se eu pudesse conversar com a Valve eu falaria para eles oficializaram tudo que a comunidade criou em relação ao competitivo e tornar oficial, assim a própria empresa forneceria os servidores.”

“Se hoje eu e as organizadoras pararem de pagar servidor, o competitivo de Team Fortress 2 simplesmente acaba”, finaliza.

O legado de Sonikro no TF2

Atualmente com 26 anos, Sonikro não joga mais Team Fortress 2 com a mesma frequência que antigamente. Por conta de seu trabalho e outros compromissos, ele é ativo na comunidade de forma casual e não costuma mais competir nos principais torneios do FPS.

“Muitas coisas acontecem fora das telas. Quando eu comecei a jogar eu tinha 12 anos, eu ia para a escola e quando chegava eu jogava o dia todo. Com 16 anos, quando comecei no competitivo, também não fazia muita coisa e jogava bastante”, lembra.

“Só que o tempo vai passando e você vai tendo mais responsabilidades, tem uma carreira para cuidar, começa um relacionamento e passa a ter contas para pagar. Hoje tenho um trabalho que exige bastante de mim e eu uso a maior parte do meu tempo livre para fazer coisas que hoje acho mais saudável para mim, no caso meu hobby atual é ciclismo. Eu continuo jogando e amando o TF2, mas de maneira casual”, explica.

Porém, sua paixão pelo TF2 é tão grande que mesmo “aposentando o mouse” ele segue presente e é um dos administradores da BGA, uma plataforma que ele mesmo criou para marcar scrims e treinar. “É um sistema que eu mesmo desenvolvi, que te coloca em uma fila e no momento que enche o número mínimo de jogadores um servidor é criado automaticamente e você joga essa partida competitiva.

“Não estou jogando competitivamente, mas estou tentando garantir que a próxima geração tenha a mesma diversão que eu tive também”, cita.

TF2
(Foto: Reprodução)

Além da BGA, Sonikro também fez de tudo para tentar fazer com que a comunidade de Team Fortress 2 crescesse e continuasse nesse caminho. De ter um canal no Youtube com aulas de dicas de como melhorar a pagar a hospedagem de servidores focados no competitivo do próprio bolso, ele certamente tentou ajudar a comunidade do jogo que ele tanto ama.

Hoje, Sonikro e a SS, seu time, são umas das maiores referências do cenário brasileiro de Team Fortress 2. Eles são exemplo e inspiração para a nova geração de jogadores competitivos de TF2, que apesar de pequena, é tão apaixonada pelo jogo quanto ele. 

“Nos últimos anos eu tentei criar muita coisa para a comunidade de TF2. Eu já fiz muita parceria no Youtube para fazer aulas e cursos de Team Fortress 2 para trazer conhecimentos aos novatos, como criar estratégias de jogo e explicando o meta do momento”.

“Eu também postava as minhas partidas competitivas de campeonato com o áudio da comunicação e minha POV para ajudar os times que estão começando a entender o que tem que fazer. Desde 2014 também hospedo servidores de Team Fortress 2 que estão ativos até hoje sendo pagos do meu bolso para o pessoal poder jogar”, cita.

“Eu parei de jogar, mas muitas pessoas me olham como referência na comunidade. Não só eu como meu time também. Mesmo não sendo mais a melhor equipe do Brasil, somos o modelo do que é ser um um time unido e duradouro. Da mesma maneira que já ganhamos muito nós também já perdemos muito e a resiliência da Sonikro Solutions é algo que é uma referência.”

“Perdendo ou ganhando a gente estava sempre junto, o que é raro na nossa comunidade de jogos online. Muitas pessoas também me adicionam na Steam ou no Discord para me pedir dicas sobre o jogo e o competitivo e para mim isso é bem gratificante. Poder influenciar essa geração de novos jogadores de Team Fortress 2 mesmo sem estar jogando é com certeza o ponto alto da minha carreira”, explica o jogador.

Team Fortress 2 é um jogo cheio de problemas. Atualmente ele vive uma crise com bots de aimbot e a Valve parece não se importar muito com isso já que a situação existe faz um tempo e não foi resolvida até o momento. Além disso, a desenvolvedora também nunca demonstrou interesse em consertar os erros do matchmaking oficial do jogo e cultivar um cenário competitivo real.

Porém, a comunidade de TF2 é diferente de todas as outras. Claro, ela conta com membros tóxicos como todo competitivo online, mas mesmo Team Fortress 2 tendo problemas que fariam muitas pessoas desistirem, a maioria de seus jogadores continuam jogando todos os dias e seus números não param de crescer.

Essas mesmas pessoas também pagam do próprio bolso para continuarem jogando o competitivo que elas mesmas inventaram e tanto amam por conta da falta de investimento da Valve, mesmo existindo outras alternativas no mercado de jogos competitivos onde um possível futuro nos esports é muito mais possível e realístico.

Por fim, o cenário competitivo de Team Fortress 2 é a representação fiel da fala do próprio Sonikro. “As pessoas jogam TF2 por amor, elas não jogam por fama ou por dinheiro”.