Opinião: Ranking alto não te faz um campeão, e estou pronto para essa conversa

Geral
De:Maximilian Rox-
May 14, 2021

Um dos conceitos que mais incomodam os fanáticos da SoloQ é que você pode vencer um campeonato com um bronze na sua equipe — e aqueles que mais duvidam disso são os que nunca jogaram um campeonato na vida. O fato é que o ranking não importa tanto assim quando, no calor da competição, são várias variáveis sendo testadas além da simples habilidade no seu tabuleiro preferido de xadrez virtual.

Parte dessa discussão surgiu na minha cabeça quando me argumentaram que jogador X era melhor que Y porque o primeiro “batia” algumas vezes no segundo durante as partidas ranqueadas de Warcraft. Mas X deixou de ser profissional há anos e sequer joga os campeonatos enquanto Y constantemente é o top 2 dos torneios da América do Norte. Lançar esse tipo de comparação é um erro bem comum para muitos fãs de esports. Resultados em torneios são, em muitas vezes, bem diferentes de partidas ranqueadas.

O jogo não importa tanto assim daqui em diante: o fato é que uma partida ranqueada ou de SoloQ jamais testará o quão completo é um jogador do que um torneio. E há várias formas de provar isso.

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SoloQ Ranking

SoloQ é o encontro às cegas do pro player

Pra começo de conversa, filas ranqueadas em jogos de equipe são um verdadeiro desastre quando o assunto é equilíbrio. Em modalidades individuais até que vai, né: entre StarCraft, Quake a Mortal Kombat, um profissional pode aproveitar aquele pareamento simples entre dois jogadores para testar match-ups, reações, mind games e conceitos mais avançados; embora esse encontro jamais traga outras variáveis que vamos falar lá pra frente.

Mas essa fila em um game como o LoL é uma verdadeira roleta russa entre maníacos, mono champions e bons jogadores. Como um encontro às cegas, você nunca sabe se vai dar match ou não. E, mesmo assim, todos vocês amam a SoloQ. Não largam a emoção do chute no saco e da volta quase imediata pra próxima pancada.

Todo começo de campeonato é aquela folia atrás de elo enquanto o time está lá fora fazendo um bootcamp. A gente sabe disso — nós mesmos acompanhamos todos os jogadores do Brasil pré-MSI e Mundial aqui no Mais Esports. Afinal, as ranqueadas tem um indicativo interessante: elas apontam como os profissionais estão reagindo ao metagame. Mas elas jamais vão mostrar o mais importante: como estão indo os treinos entre os times.

Sendo ou não um jogo em equipe, as filas ranqueadas também têm uma constante: elas são encontros esporádicos entre alguns jogadores. E esses encontros não tem muita utilidade para um jogador profissional, já que apenas fragmentos mínimos dessa interação serão úteis em um ambiente de campeonato.

Warcraft 3
Warcraft 3 mostra que, sim, é possível um ranking alto ser um grande campeão. Happy, o primeiro colocado no ranking da W3Champions, venceu 57 dos 67 campeonatos semanais da ESL na Europa. O garoto é um monstro, mas é uma das poucas exceções que conheço.

É normal dar de caras com aquele cidadão que só joga com um boneco ou uma estratégia esquecida nos pergaminhos do metagame. Os que resolvem te focar só porque você é pro player ou streamer. Os que simplesmente vivem em seu mundo de conto de fadas cintilante e isolado desse plano astral, e que no fim esquecem de jogar em equipe. Aqueles inocentes que entram na partida e mãe, namorada, cachorro e tia vem no desejo insaciável da interação social. Sem falar nos dez mil tiltados que sempre saem do bueiro pra fazer parte da tua equipe.

Ao fim, o resultado daquele jogo perdido no tempo e espaço só vai provar uma coisa que vamos abstrair mais tarde: que você teve uma ligeira parcela de responsabilidade na insanidade que foi a vitória ou derrota. Você se mostrou hábil o suficiente para controlar algumas variáveis dessa maluquice que provavelmente nunca mais vai se repetir.

Mas competições são outros quinhentos.

Campeonatos são verdadeiras jornadas de adaptação

Um bronze preparado pode vencer um campeonato enquanto um diamante pode derreter sua gameplay pelo nervosismo. Já vi isso acontecer em plena final de um torneio de League of Legends enquanto o sol batia na salinha de um domingo curitibano.

Um bando de bronzes e ouros gritava tudo o que ia fazer e, do outro lado, uma fila lotada de platinas e diamantes ficava digitando entre si sem entender o que tava acontecendo. O caos organizado do ranking baixo se adaptou ao ambiente que estava, saiu na frente de 10 times e usou o prêmio para dividir cerveja e batata frita no boteco logo após a vitória.

Foto: Riot Games

Mas também existem campeonatos e campeonatos. Eu consigo imaginar o escândalo desenfreado de thumbs de YouTube se algum time vencesse o CBLOL com um bronze na equipe. O case de sucesso para uma comissão técnica seria, ao mesmo tempo, o desastre completo da autoridade para uma competição profissional.

Afinal, torneios são ambientes de adaptação e um jogador de ranking baixo é o que está mais suscetível a erros. Se ele venceu em uma competição grande é porque alguma coisa está realmente errada — principalmente com relação aos seus adversários. Eles podem ser chamados de profissionais se não conseguiram explorar os erros de um jogador que sofre tanto para controlar o caos das ranqueadas?

Qualquer campeonato que se preze vai adotar modelos que permitam testar amplamente e colocar os jogadores e sua comissão técnica em diferentes níveis de adaptação. Pra começo de conversa, torneios longos já são os mais indicados para determinar os melhores daquele tempo e espaço, especialmente usando formatos divididos em múltiplas fases. Uma fase de grupos seguido do famoso playoff, por exemplo, é um modelo justo com incremento de valor e pressão em cada um dos jogos.

E isso sem falar quando o confronto direto valoriza também a adaptação quase que imediata. Não é incomum jogadores reclamarem de situações de MD1 em um campeonato, não é mesmo? Pois casos assim não entregam oportunidades de adaptação em uma série. Você só tem uma chance de fazer aquilo certo; e é muito fácil de perdê-la pra sempre.

Por isso o trabalho psicológico e técnico dos jogadores é tão importante em campeonatos e séries longas. Estudar tendências dos oponentes, prever e adaptar suas escolhas mediante isso e manter uma estabilidade mental em meio a situações de estresse é algo que o fanático de SoloQ não passa enquanto clica para entrar na fila no conforto de sua casa. O gameplay será posto em teste da mesma forma que a partida ranqueada, mas há muito mais elementos em prática.

LoL Ranking

O jogador mais preparado para encarar tudo isso vence. Não é só a habilidade que está em fator por aqui — muito embora ela seja, sim, uma peça das mais valiosas na equação. E é por isso que um bronze talvez nunca vença um CBLOL; mas ele é capaz de ganhar um campeonato ali do seu bairro.

Afinal, de tanto em tanto, é comum encontrar bronzes confiantes e diamantes tiltados por aí. A “call” mais difícil está logo em seguida: qual dos dois você chamaria para a sua equipe?

Afinal, qual o valor do ranking?

Existe um motivo bem forte para os desenvolvedores colocarem um modo ranqueado no seu jogo competitivo favorito. Eles sabem que, ao clicar naquele botãozinho mágico, você está passando por uma porta para outras… experiências, digamos assim, mais fortes. Como assistir campeonatos daquele jogo na Twitch. Ou torcer para um time. Ou, nos casos de dependência mais forte de adrenalina, entrar para o competitivo.

E cá estamos todos nós. Provavelmente você já clicou naquele botão uma vez na sua vida. E isso não é um erro. O erro é dar valor demais aos resultados de lá.

DotA 2 ranking

Claro que é legal subir de elo, ver seu ranking aumentando e celebrar vitórias contra jogadores mais fortes. Tudo isso define parte da sua habilidade em um jogo, mas não te invalidam como um bom jogador. Afinal, esse sistema é tão falho e as pessoas abusam tanto dele que, se vocês soubessem de tudo que acontece por lá, ficariam enojados.

Elojob, scripts e hacks são algumas das malandragens dos meliantes por aí. Esses dias vi uma série de jogadores de “nível alto” no Warcraft 3 perderem várias seguidas apenas para “stompar” a galera do prata logo em seguida. É esse tipo de gente que entrou pela mesma porta que você, mas provavelmente tá naquele canto mais sombrio do cômodo.

E provavelmente rindo sozinha.